Introdução
E se falar sobre longevidade fosse, antes de tudo, falar sobre nós mesmos?
Participar do CONARH 2026 – Congresso Nacional de Gestão de Pessoas, que neste ano trouxe como tema “Brasil Global: o futuro da gestão é humano”, e do MaturiFest 2026, que amplia o debate sobre longevidade, carreira, diversidade etária e novas possibilidades para profissionais 50+, trouxe-me mais do que reflexões sobre o futuro do trabalho.
Como profissional de RH e do Instituto Velho Amigo, esses encontros reforçaram uma pergunta que precisamos fazer às organizações e também a nós mesmos:
Estamos preparados para viver e trabalhar em uma sociedade em que as pessoas estão vivendo mais?
O Brasil já vive uma profunda transformação demográfica. A população com 60 anos ou mais já ultrapassa 34 milhões de pessoas, e esse número tende a crescer nas próximas décadas. Mais do que um dado demográfico, essa realidade nos convida a repensar a forma como trabalhamos, cuidamos, aprendemos e construímos nossas relações ao longo da vida.
Os números ajudam a dimensionar essa transformação. Mas existe uma questão ainda maior por trás deles:
O envelhecimento não é uma realidade distante. É uma experiência que atravessa todos nós.
Longevidade também fala sobre a nossa trajetória
Longevidade e envelhecimento caminham juntos, mas não são a mesma coisa.
Envelhecer é um processo que faz parte da vida. Longevidade está relacionada à possibilidade de viver mais e às novas experiências, escolhas e possibilidades que esse tempo pode trazer.
Tenho mais de 25 anos de atuação em RH e, ao longo dessa trajetória, acompanhei diferentes gerações chegando ao mercado de trabalho, mudanças culturais, novas formas de liderar e profundas transformações nas organizações.
Mas meu repertório sobre longevidade não foi construído apenas no ambiente profissional.
Sou profissional, esposa, mãe, filha e voluntária. Tenho uma filha de 9 anos e acompanho de perto meus pais, hoje com 86 e 81 anos. Costumo dizer, com carinho, que vivo a experiência de ser uma “filha sanduíche”: entre diferentes gerações, responsabilidades, necessidades e aprendizados.
Essa experiência me fez perceber que falar sobre longevidade também é falar sobre as diferentes fases que atravessamos ao longo da vida.
Acumulamos experiências, conhecimentos, relações, erros, acertos, recomeços e novas formas de compreender o mundo.
Por isso, longevidade não deve ser vista apenas como aumento da expectativa de vida. É também a possibilidade de continuar aprendendo, contribuindo, construindo relações e encontrando novos significados.
Nenhuma pessoa chega ao trabalho apenas com um currículo. Chega com uma história.
Chega com filhos, pais, relações, responsabilidades, desejos, desafios, experiências, projetos e diferentes momentos de vida.
Se estamos vivendo mais, precisamos rever nossas estratégias
Se estamos vivendo e trabalhando por mais tempo, precisamos rever nossas estratégias de carreira, desenvolvimento, sucessão, aprendizagem, liderança e benefícios.
Precisamos falar de aprendizagem ao longo da vida e criar oportunidades de desenvolvimento que não desapareçam depois de determinada idade.
Também precisamos combater o etarismo.
Profissionais podem ser considerados “velhos demais” para aprender, mudar de área ou assumir novos desafios. Jovens podem ser vistos como “jovens demais” para liderar ou contribuir.
Nos dois casos, o problema é o mesmo:
A idade passa a determinar previamente aquilo que esperamos de uma pessoa.
O potencial precisa ser reconhecido por competências, possibilidades de desenvolvimento e contribuições, não pela data de nascimento.
Diferentes gerações podem construir juntas

Minha própria trajetória me colocou muitas vezes entre gerações e me mostrou que as diferenças geracionais podem gerar desafios, mas também podem gerar potência.
É nisso que acredito quando falamos em construção entre gerações: quando diferentes gerações compartilham experiências, conhecimentos e novas perspectivas, renovando juntas a forma de aprender, trabalhar e construir o futuro.
Uma pessoa traz experiência acumulada. Outra chega com novas referências. Uma compartilha memória institucional. Outra apresenta novas tecnologias, linguagens e possibilidades.
Nenhuma dessas contribuições precisa competir. Elas podem se complementar.
Quando as organizações criam ambientes intergeracionais, o conhecimento circula, a experiência encontra a inovação e diferentes perspectivas podem se transformar em construção coletiva.
Esse é um dos grandes desafios para o RH: não apenas administrar diferentes gerações, mas criar condições para que elas aprendam umas com as outras.
Não existe uma única forma de envelhecer
E essa discussão precisa considerar que não existe uma única forma de envelhecer. Existem múltiplas velhices.
As experiências de trabalho, renda, educação, cuidado, território e acesso a oportunidades influenciam profundamente a forma como cada pessoa envelhece.
Por isso, não podemos falar de pessoas 50+, 60+ ou 70+ como se fossem um grupo homogêneo.
Há quem deseje continuar trabalhando. Há quem queira empreender, ensinar, aprender, fazer uma transição de carreira, trabalhar menos horas ou encontrar no voluntariado uma nova forma de participar e contribuir.
Reconhecer as múltiplas velhices é romper estereótipos e ampliar possibilidades.
O futuro do trabalho também precisa ser longevo
Muito se fala sobre o futuro do trabalho: inteligência artificial, novas tecnologias, flexibilidade, produtividade e novas profissões.
Tudo isso importa.
Mas existe uma dimensão que não podemos deixar de lado:
Quem serão as pessoas que estarão trabalhando nesse futuro?
Serão pessoas que viverão mais, terão carreiras mais longas, aprenderão durante toda a vida e precisarão conciliar trabalho, relações, projetos e diferentes momentos de suas trajetórias.
Preparar o futuro do trabalho também significa preparar as organizações para a longevidade.
Significa combater o etarismo, promover aprendizagem contínua, rever modelos de carreira, valorizar experiências e permitir que diferentes gerações contribuam.
Também significa reconhecer que pessoas mais velhas não são apenas destinatárias de políticas de inclusão ou cuidado. São profissionais, empreendedoras, voluntárias, cuidadoras, líderes, mentoras, estudantes e cidadãs, com experiências e conhecimentos que continuam contribuindo para a sociedade.
Quando olho para a missão do Instituto Velho Amigo — Ressignificar e Dignificar as Múltiplas Velhices — percebo o quanto ela dialoga com a minha própria trajetória.
E também vivo o meu próprio processo de envelhecimento.
Digo isso com tranquilidade e alegria.
Não penso apenas no tempo que passou, mas no repertório que construí e em tudo aquilo que ainda posso aprender, compartilhar e transformar.
Uma oportunidade para repensar o envelhecimento

Talvez essa seja uma das maiores mudanças que precisamos promover quando falamos sobre longevidade:
Parar de enxergar o envelhecimento apenas pelo que se perde e reconhecer também aquilo que se constrói ao longo da vida.
Porque falar sobre longevidade não é falar apenas sobre pessoas idosas.
É falar sobre todos nós.
Afinal, envelhecer faz parte da vida.
E talvez a grande pergunta não seja apenas quanto tempo viveremos, mas:
Como queremos viver, trabalhar, aprender, contribuir e envelhecer?
Essa é uma conversa que as organizações precisam ter hoje.
Porque o futuro do trabalho também será o futuro das nossas próprias histórias.
Velhice é potência.
Respeito é dever.
Dignidade é direito.
Quer ajudar este trabalho a continuar?
Sobre a autora

Andreia Lima é coordenadora de RH do Instituto Velho Amigo. Administradora, com MBA em Desenvolvimento e Gestão de Pessoas pela FGV e MBA Executivo em Saúde. Atua há mais de 25 anos na área de RH, com experiência nos setores do Terceiro Setor, Saúde, Educação e Indústria. É também consultora e voluntária em causas sociais.
Sua atuação conecta pessoas, cultura, desenvolvimento e propósito, com foco na construção de ambientes mais humanos, inclusivos e alinhados aos objetivos das organizações.
