O Brasil está envelhecendo e rápido.
Mas a forma como cuidamos das pessoas idosas, das famílias e de quem sustenta esse cuidado ainda está presa a um modelo antigo, desigual e silencioso. Durante décadas, o cuidado foi tratado como assunto privado, resolvido dentro das casas, quase sempre às custas das mulheres.
Hoje, esse modelo está no limite.
A criação da Política Nacional de Cuidados (PNC) marca uma virada importante: o cuidado passa a ser reconhecido como direito, não como favor; como responsabilidade coletiva, não como obrigação individual. E isso muda tudo, especialmente quando falamos de envelhecimento.
Para o Instituto Velho Amigo, que atua há mais de duas décadas promovendo o envelhecimento digno, ativo e integrado à vida comunitária, esse debate não é abstrato. Ele nasce do cotidiano, da escuta de pessoas idosas, famílias e cuidadoras que sustentam, muitas vezes sozinhas, um sistema que nunca foi desenhado para apoiá-las. Este texto convida você a olhar para o cuidado com mais honestidade, menos romantização e mais compromisso social.
O cuidado no Brasil: quem sustenta esse sistema invisível
Quando falamos de cuidado, falamos de ações essenciais para a vida cotidiana: ajudar a se alimentar, tomar banho, ir ao médico, organizar medicamentos, acompanhar rotinas. Nada disso é opcional — mas quase tudo é invisível.
No Brasil, o cuidado ainda é organizado assim:
- Dentro das famílias;
- Exercido majoritariamente por mulheres;
- De forma não remunerada ou mal remunerada;
- Com pouco ou nenhum apoio do Estado.
Esse arranjo produz um efeito em cadeia: mulheres deixam o mercado de trabalho, reduzem renda, acumulam cansaço e adoecem. Ao mesmo tempo, pessoas idosas, com deficiência ou em situação de dependência ficam vulneráveis à falta de serviços de qualidade.
Não é coincidência. É estrutura.
A experiência do Instituto Velho Amigo mostra que, quando o cuidado não é apoiado, ele se transforma em sobrecarga — e a sobrecarga compromete vínculos, saúde mental e a própria possibilidade de envelhecer com dignidade.
Envelhecer em um país desigual: quem mais precisa de cuidado

A Política Nacional de Cuidados é clara ao definir seus públicos prioritários:
- Crianças e adolescentes;
- Pessoas idosas que necessitam de apoio para atividades da vida diária;
- Pessoas com deficiência em situação de dependência;
- Trabalhadoras e trabalhadores do cuidado.
No caso das pessoas idosas, o desafio é duplo. De um lado, o aumento da expectativa de vida amplia a demanda por cuidados contínuos. De outro, a desigualdade social faz com que envelhecer no Brasil seja uma experiência profundamente desigual.
Uma pessoa idosa com renda, acesso a serviços e rede de apoio vive uma velhice.
Uma pessoa idosa pobre, negra e moradora de território vulnerável vive outra — muito mais dura.
Reconhecer isso é o primeiro passo para combater o etarismo e produzir políticas que respeitem as múltiplas velhices. É esse reconhecimento que orienta a missão do Instituto Velho Amigo: fortalecer vínculos, promover autonomia possível (compatível com a realidade de cada pessoa idosa) e garantir que nenhuma velhice seja tratada como descartável.
Cuidado como direito: o papel do Estado e da sociedade
Tratar o cuidado como direito significa assumir que:
- Ele não pode depender apenas da família;
- Não pode ser terceirizado apenas ao mercado;
- Não pode continuar invisível nas políticas públicas.
A PNC introduz dois princípios fundamentais:
1. Corresponsabilidade social – o cuidado deve ser compartilhado entre Estado, famílias, comunidade e setor privado.
2. Corresponsabilidade de gênero – homens e mulheres devem dividir, de forma justa, o trabalho de cuidado.
Isso implica ampliar e qualificar serviços como:
- Centros-dia para pessoas idosas;
- Programas de cuidado domiciliar;
- Apoio, formação e valorização de trabalhadoras e trabalhadores do cuidado;
- Políticas que garantam tempo, renda e proteção social para quem cuida.
Não é gasto. É investimento social.
E é também uma condição básica para que iniciativas comunitárias, como as desenvolvidas pelo Instituto Velho Amigo, possam atuar de forma complementar — e não substitutiva — às responsabilidades do Estado.
Como a crise dos cuidados afeta toda a sociedade
A ausência de serviços públicos de cuidado de qualidade não gera apenas sofrimento individual. Ela reforça desigualdades estruturais.
Quando o cuidado falha:
- O desenvolvimento de pessoas dependentes é comprometido;
- Mulheres perdem autonomia econômica;
- Famílias se sobrecarregam;
- O sistema de saúde e assistência entra em colapso;
- O envelhecimento se torna sinônimo de medo, não de dignidade.
Crises econômicas, sanitárias e ambientais agravam ainda mais esse cenário. A pandemia da COVID-19 e os desastres climáticos recentes escancararam o que já estava posto: quando tudo desmorona, é o trabalho de cuidado que sustenta a vida — quase sempre sem reconhecimento, proteção ou apoio.
Cuidar também é projeto de futuro
Falar de cuidado é falar de que tipo de sociedade queremos construir.
Uma sociedade que empurra o cuidado para o fundo da casa, ou uma que o coloca no centro das decisões?
A Política Nacional de Cuidados não resolve tudo sozinha. Mas ela inaugura um caminho: o de reconhecer que cuidar é trabalho, é direito e é responsabilidade coletiva.
Para quem atua com envelhecimento, como o Instituto Velho Amigo, essa agenda não é acessória. Ela é estrutural. Sem cuidado, não há envelhecimento digno. Sem envelhecimento digno, não há futuro sustentável.
Valorizar as múltiplas velhices passa, necessariamente, por reorganizar o cuidado no Brasil. A Política Nacional de Cuidados aponta esse caminho ao propor políticas públicas, mudança cultural e coragem para enfrentar desigualdades históricas de gênero, raça e classe.
Cuidar de quem cuida não é gentileza.
É justiça social.
O futuro, esse sim, começa a ser cuidado agora.
Sobre a autora
Elza Araújo é coordenadora da área programas e projetos do Instituto Velho Amigo, com atuação em políticas sociais, envelhecimento e cuidado. Atua no desenvolvimento de programas voltados à promoção da autonomia, da dignidade e da inclusão de pessoas idosas, com foco em justiça social e no fortalecimento de redes de cuidado. É integrante do Comitê Estratégico do Plano Nacional de Cuidados.

