Introdução
Há acontecimentos que nos obrigam a olhar para o espelho como sociedade. O episódio ocorrido na região da Lapa, em São Paulo, onde moradores manifestaram resistência à presença de Instituições de Longa Permanência para Pessoas Idosas (ILPI), é um desses momentos.
Mais do que uma discussão sobre uso do solo, urbanização ou valorização imobiliária, o caso revela algo mais profundo: a dificuldade que ainda temos de reconhecer a velhice como parte legítima da vida em comunidade.
As declarações repercutidas pela imprensa geraram indignação ao associarem pessoas idosas ao incômodo, à fragilidade e até à desvalorização de imóveis. Como se envelhecer fosse um problema urbano. Como se aqueles que necessitam de cuidado representassem uma ameaça à convivência social.
O que o filme O Último Azul nos ensina
Essa realidade dialoga de forma impressionante com o filme O Último Azul. A obra apresenta uma sociedade que, sob argumentos de organização e eficiência, afasta as pessoas idosas do convívio comunitário.
Embora seja uma narrativa ficcional, o filme provoca uma reflexão urgente: até que ponto estamos dispostos a aceitar a exclusão de determinados grupos porque eles já não correspondem aos padrões de produtividade, juventude e desempenho valorizados socialmente?
Sua principal força está justamente em mostrar que a exclusão raramente acontece de forma explícita. Muitas vezes ela surge disfarçada de argumentos aparentemente razoáveis, como modernização, segurança ou planejamento urbano.
O direito de envelhecer na cidade
Quando instituições destinadas ao cuidado de pessoas idosas são vistas como indesejáveis porque ambulâncias circulam com frequência ou porque a fragilidade humana se torna visível, o que está sendo questionado não é apenas a presença de uma instituição.
O que está em jogo é o direito de existir na cidade.
A Constituição Federal, o Estatuto da Pessoa Idosa e a recente Política Nacional de Cuidados reconhecem o envelhecimento digno como um direito fundamental. As ILPI não são depósitos humanos. São espaços de moradia, proteção, convivência, cuidado e garantia de direitos.
Uma sociedade comprometida com a dignidade humana não pode aceitar que o cuidado seja tratado como um incômodo.
O desconforto social diante da velhice
A reflexão proposta pelo sociólogo Jessé Souza, em A Elite do Atraso, ajuda a compreender esse fenômeno. O autor demonstra como grupos socialmente privilegiados frequentemente criam mecanismos para preservar seus espaços de conforto, transformando populações vulneráveis em problemas a serem afastados.
Nesse contexto, a velhice passa a ocupar um lugar desconfortável. Deixa de ser reconhecida como parte natural da trajetória humana e passa a ser percebida como algo que deve permanecer invisível.
A contradição é evidente.
Todos desejam viver mais. Mas poucos parecem dispostos a conviver com os sinais do envelhecimento.
Celebramos a longevidade como uma conquista civilizatória, mas muitas vezes rejeitamos aqueles que representam concretamente essa conquista.
Uma cidade amiga da pessoa idosa é muito mais do que um título
Em 2025, São Paulo solicitou à Organização Mundial da Saúde o reconhecimento como Cidade Amiga da Pessoa Idosa. A iniciativa é importante, mas exige compromisso real.
Uma cidade amiga não se mede apenas por certificados ou selos institucionais.
Ela se revela na forma como trata aqueles que precisam de proteção, cuidado e pertencimento. É a cidade que acolhe a velhice em seus bairros, serviços, equipamentos públicos e políticas sociais. É a cidade que compreende que cuidar não é um favor, mas uma responsabilidade coletiva.
Que futuro queremos construir?
O filme O Último Azul nos alerta para os riscos de uma sociedade que escolhe afastar seus velhos do convívio social. Os acontecimentos da Lapa mostram que essa reflexão está longe de pertencer apenas à ficção.
Ela acontece aqui. Agora.
Por isso, permanece uma pergunta simples, mas poderosa:
Que cidade queremos construir? Uma cidade para patrimônios ou uma cidade para pessoas?
A resposta dirá muito sobre o futuro que desejamos para nós mesmos.
Porque, quando uma sociedade rejeita a velhice, não está apenas excluindo pessoas idosas. Está rejeitando sua própria humanidade.
Defender a presença da pessoa idosa na cidade é defender a memória coletiva, os vínculos entre gerações e o direito de envelhecer com dignidade.
Em última análise, defender a velhice é defender a democracia.
Sobre a autora

Sandra Regina Gomes é especialista em Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), mestre em Gestão e Políticas Públicas pela FGV, doutoranda na Universidade de Brasília (UnB), pesquisadora do Grupo Envelhecer Cotidiano e fundadora da Longevida.
