Como o voluntariado fortalece a participação social, aproxima gerações e nos ajuda a construir a sociedade em que desejamos envelhecer
Silvia Maria Louzã Naccache
Envelhecimento: uma conquista que transforma a sociedade
O Brasil está vivendo uma das maiores transformações demográficas de sua história. Longe de representar apenas um desafio, o envelhecimento da população é resultado de importantes conquistas sociais, dos avanços da saúde e do aumento da expectativa de vida. Os dados do Censo Demográfico de 2022, do IBGE, mostram que o país tem mais de 203 milhões de habitantes e que 15,8% da população — cerca de 32 milhões de pessoas — têm 60 anos ou mais.
Esses números nos convidam a refletir sobre uma questão que vai muito além das estatísticas: como queremos envelhecer? E, mais importante, que sociedade estamos construindo para acolher uma população cada vez mais longeva?
Celebrar o Dia Nacional do Voluntariado, em 28 de agosto, é também uma oportunidade para pensar nessas perguntas. O voluntariado não é apenas uma forma de ajudar alguém. É uma expressão de cidadania, de participação social e de compromisso com o bem comum. Quando escolhemos dedicar tempo, conhecimento e afeto a uma causa, fortalecemos comunidades e também transformamos a maneira como enxergamos o mundo.
Escrevo este artigo também a partir da minha experiência como voluntária do Comitê de Captação de Recursos e Voluntariado do Instituto Velho Amigo. Tenho o privilégio de contribuir para uma organização que há mais de duas décadas trabalha para garantir que as pessoas idosas sejam reconhecidas em sua dignidade, autonomia e potencial. Minha atuação está voltada ao fortalecimento do programa de voluntariado, à mobilização de recursos e à aproximação com empresas investidoras, especialmente por meio do voluntariado corporativo.
Essa vivência me ensinou algo muito simples e, ao mesmo tempo, muito poderoso: quando nos aproximamos da causa do envelhecimento, percebemos rapidamente que ela não diz respeito apenas às pessoas idosas. Ela fala sobre todos nós.
O voluntariado também é uma forma de preparar o futuro
Ao longo da minha trajetória trabalhando com voluntariado, aprendi que muitas pessoas se aproximam de uma causa porque desejam contribuir. Mas permanecem porque descobrem que também estão sendo transformadas.
Na causa do envelhecimento isso acontece de maneira muito especial.
Quem convive com pessoas idosas aprende sobre resiliência, memória, afeto, perdas, recomeços e esperança. Aprende que envelhecer não significa deixar de sonhar, de aprender ou de participar. Aprende, sobretudo, que a longevidade pode ser vivida de muitas maneiras.
Talvez por isso eu goste de pensar que o voluntariado na causa do envelhecimento é também uma oportunidade para construir a nossa própria longevidade.
Não porque ele garanta uma velhice saudável, mas porque nos ajuda a desenvolver vínculos, fortalecer a participação social, exercitar a empatia e compreender que todos nós fazemos parte dessa mesma trajetória.
O tempo ganha novos significados
Durante muito tempo, a aposentadoria foi entendida como o fim da vida produtiva. Hoje sabemos que ela pode representar o início de um novo ciclo. E eu, hoje com 68 anos, sou uma dessas pessoas! Seguimos desejando continuar ativas, aprendendo, ensinando, viajando, estudando, trabalhando ou dedicando parte do nosso tempo a uma causa social.
O voluntariado oferece exatamente essa possibilidade. Mais do que preencher a agenda, ele dá significado ao tempo. Permite compartilhar conhecimentos, criar novas amizades, descobrir habilidades, fortalecer vínculos e continuar contribuindo para a comunidade.
Ao longo de mais de duas décadas acompanhando a Pesquisa Voluntariado no Brasil, aprendi que o recurso mais valioso que um voluntário oferece é o tempo.
Curiosamente, nossas pesquisas também mostram que justamente a falta de tempo continua sendo o principal motivo apontado por quem ainda não participa de ações voluntárias.
Talvez o desafio não seja encontrar mais tempo. Talvez seja decidir como queremos viver o tempo que temos.
Múltiplas velhices, múltiplas formas de participar e de voluntariar
Diferentes formas de envelhecer
Uma das maiores contribuições do Instituto Velho Amigo para esse debate está em lembrar que não existe uma única forma de envelhecer. Existem múltiplas velhices.
Há pessoas idosas que seguem trabalhando, estudando, empreendendo, viajando e fazendo trabalho voluntário. Outras convivem com limitações físicas, cognitivas ou dependem de cuidados. Algumas vivem cercadas por familiares e amigos. Outras enfrentam o isolamento social. Há diferentes histórias, territórios, oportunidades, condições de saúde, experiências e projetos de vida.
Reconhecer essa diversidade é reconhecer cada pessoa em sua singularidade.
Diferentes formas de atuar como voluntário
Da mesma forma, também existem múltiplas formas de participar e de voluntariar.
Há pessoas idosas que encontram no voluntariado uma oportunidade para compartilhar sua experiência de vida e permanecer socialmente ativas. Outras preferem participar de grupos de convivência, atividades culturais, esportivas ou comunitárias. Há também aquelas que, em determinados momentos da vida, tornam-se beneficiárias da ação voluntária.
Quem escolhe atuar nessa causa também encontra inúmeras possibilidades.
Há quem organize oficinas de arte, música, leitura, tecnologia ou atividade física. Há quem visite Instituições de Longa Permanência para Pessoas Idosas, acompanhe passeios, promova atividades intergeracionais, ofereça apoio profissional à gestão de organizações sociais ou contribua na comunicação, na mobilização de recursos e no fortalecimento de programas de voluntariado.
Não existe uma única maneira de ser voluntário.
Existe a maneira que faz sentido para cada pessoa, respeitando seus talentos, sua disponibilidade e o momento de vida que está vivendo.

O encontro entre gerações transforma a todos
Um dos aspectos mais bonitos do voluntariado é sua capacidade de aproximar pessoas que talvez nunca se encontrassem. Jovens descobrem histórias que nenhum livro conta. Pessoas idosas entram em contato com novas linguagens, tecnologias e formas de ver o mundo.
Empresas aproximam seus colaboradores de uma realidade que muitas vezes desconheciam. Organizações sociais criam espaços onde a convivência se torna um instrumento de inclusão e cidadania.
Quando diferentes gerações convivem, diminuem os preconceitos, aumentam o respeito e nasce uma compreensão muito mais humana sobre o processo de envelhecer.
É nesse encontro que o etarismo começa a perder espaço.
O papel do voluntariado corporativo
Como voluntária do Instituto Velho Amigo, acompanho de perto o impacto das empresas que escolhem investir nessa causa. Além do apoio financeiro, muitas delas mobilizam seus colaboradores para experiências de voluntariado. Os resultados aparecem em diferentes dimensões. As pessoas idosas sentem-se valorizadas e ainda os colaboradores ampliam seu olhar sobre o envelhecimento. Todos ganham, porque as empresas fortalecem sua cultura de cidadania e responsabilidade social e as organizações sociais ampliam sua capacidade de atuação.
Mais do que uma ação solidária, o voluntariado corporativo cria oportunidades para que pessoas de diferentes gerações convivam, aprendam umas com as outras e construam relações baseadas no respeito e na empatia.
Muito além de fazer o bem
Ao longo da minha caminhada no voluntariado, aprendi que as maiores transformações raramente acontecem apenas para quem recebe uma ação. Elas acontecem, principalmente, em quem decide participar. Vejo isso com frequência no Instituto Velho Amigo. Vejo voluntários que chegam acreditando que vão ensinar e descobrem que aprenderam muito mais. Vejo colaboradores de empresas que passam a olhar para seus próprios pais, avós e para o próprio envelhecimento de forma diferente. Vejo pessoas idosas que reencontram o prazer da convivência porque alguém escolheu dedicar tempo para escutá-las, conversar ou simplesmente estar presente. Esses encontros nos lembram que a participação social é construída nas relações do cotidiano.
Um convite à participação
Neste 28 de agosto, Dia Nacional do Voluntariado, meu convite é simples: aproxime-se da causa do envelhecimento. Seja como voluntário, apoiador, empresa parceira ou alguém disposto a conhecer uma realidade que diz respeito a todos nós.
Talvez o maior equívoco seja imaginar que a causa do envelhecimento interessa apenas às pessoas idosas. Ela interessa a todos e a cada um de nós.
A cada dia vivido, construímos também a sociedade em que desejamos envelhecer.
Por isso, acredito que promover o voluntariado é muito mais do que mobilizar pessoas para uma boa ação. É criar oportunidades para que diferentes gerações convivam, aprendam umas com as outras e reconheçam o valor da experiência, da escuta e da participação social.
O voluntariado nos lembra que sempre há espaço para aprender, ensinar, cuidar e continuar fazendo parte da comunidade.
Talvez a pergunta não seja apenas quem precisa do voluntariado.
A pergunta é: que sociedade queremos construir para viver mais e viver melhor?
Em um país que envelhece rapidamente, ampliar as oportunidades de participação social é investir em qualidade de vida, cidadania e relações mais humanas.
Porque envelhecer não significa deixar de contribuir. Significa descobrir novas formas de participar.
E, quando compreendemos isso, percebemos que o voluntariado na causa do envelhecimento não transforma apenas o presente. Ele ajuda a construir um futuro em que todas as pessoas possam envelhecer com respeito, autonomia, participação e dignidade.
Quer ajudar este trabalho a continuar?
Sobre a autora

Silvia Maria Louzã Naccache é consultora, palestrante e especialista em voluntariado e voluntariado empresarial. Atua há mais de três décadas conectando organizações, empresas e pessoas para fortalecer a participação social e iniciativas de impacto. É idealizadora e coordenadora da Pesquisa Voluntariado no Brasil, fundadora e coordenadora do GEVE – Grupo de Estudos de Voluntariado Empresarial e voluntária do Comitê de Captação de Recursos e Voluntariado do Instituto Velho Amigo. É autora e coautora de publicações sobre voluntariado. Mãe e avó, acredita que as conexões entre gerações e o voluntariado são caminhos para construir uma sociedade mais solidária, participativa e preparada para o envelhecimento.
